Wednesday, June 01, 2005
Sofia, segundo Sócrates
Sócrates, o engenheiro, honra Sócrates o filósofo:
"As medidas que tomámos no âmbito do programa de estabilidade e progresso não são apenas medidas para a estabilidade, mas também para o progresso do país"
"As medidas que tomámos no âmbito do programa de estabilidade e progresso não são apenas medidas para a estabilidade, mas também para o progresso do país"
Monday, May 30, 2005
Europa - Sim? Não? Talvez, um dia...
De repente, a constituição europeia tornou-se o grande cisma do Ocidente moderno. Dá para entender? Será que já alguém explicou aos fanáticos pró e contra daquele arrazoado de rabiscos que estão a perder tempo com migalhas atiradas à cara dos incautos para induzir as massas de que têm alguma palavra a dizer sobre o rumo do Velho Continente? Amigos, já vai sendo tempo de perceberem que as grandes decisões políticas e económicas que condicionam o nosso futuro são tomadas, por meia dúzia lacaios comandados pelos grandes generais dos potentados económicos, em gabinetes blindados ao ruído dos jornais, televisões e ao burburinho incontinente da opinião pública. Caro concidadão europeu, o panorama é o seguinte: quer vote sim quer vote não num referendo, a marcha selvagem e frenética do liberalismo económico vai prosseguir a seu bel-prazer. Com mais ou menos alíneas, com mais ou menos parágrafos, a sentença já está feita. Se calhar, está na altura de saber ler nas entrelinhas.
Friday, April 29, 2005
O projecto de Carrilho
Ninguém pode acusar Manuela Maria Carrilho de faltar à verdade. Os cartazes de campanha são transparentes como a mais cristalina das águas do Pacífico. "Tenho um projecto para Lisboa". Nem mais. Ele tem um projecto: fazer da capital um trampolim para outros voos, como a liderança do PS, a chefia do Governo ou a Presidência da República. Tal como Jorge Sampaio ou Santana Lopes, Manuel Maria, que até ganha aos antecessores em astúcia e racionalidade, não terá grande dificuldade em abrir uma via directa do Terreiro de Paço para São Bento ou para Belém, deixando apeados os adversários internos e externos - Sócrates e Marques Mendes - que se atravessem no caminho. Para atingir os seus intentos não hesitará em usar todo o poder, visibilidade e meios financeiros que a autarquia lisboeta lhe colocará nas mãos. Nem tão pouco as vantagens mediáticas subjacentes, inerentes ao cargo, como ser capa de revista cor-de-rosa, com paparazzis combinados, em que aparece à beira-Tejo, de mão dada com a Babicha ou o Dinis Maria. E, então, lá virá a ele, qual prima dona ofendida, a pregar um belo selo no fotógrafo, a arrogar-se vítima de invasão de intimidade, e amealhar mais uns pontos na caderneta dos cromos que gostam de comentar as quintas das celebridades deste lodaçal à beira-mar despejado. E, depois, já refeito, lá vai ele lampeiro, com a prole, inaugurar uma exposição de um amigo a quem deve uns favores, sorrir para o mesmo fotógrafo, com aquele esgar de pepsodente cínico treinado exaustivamente em frente ao espelho da casa-de-banho. É assim o seu projecto para Lisboa: branco e puro, como um sorriso Pepsodent.
Monday, April 11, 2005
De seg a sex- Bobos na SIC Mulher
Qual Ginger Lynn qual quê? Adiós, muchacha Tracy Lords? Minhas caras e fiéis amigas, protagonistas de épicos que muitas horas de prazer me proporcionaram, vocês acabaram de passarar à história. Obrigado, responsáveis do Sexy Hot e do eloquente Viver Vivir (vulgo Canal 18) pela qualidade da vossa grelha, cuja criteriosa selecção constitui um exemplo de serviço público a levar em conta pela televisão de Estado, mas a partir de agora vou dispensar a vossa programação. É que, hoje, é um grande dia para mim. Ao fim de quase três décadas como cinéfilo pornográfico, descobri, finalmente, o broche verdadeiro. E olhem que eu já vi muita mamada, loiras com silicone nos lábios , latinas que sugavam com um fervor tal que pareciam um aspirador com motor V12, orientais a desafiarem a lei da gravidade enquanto sorviam o jorro pastoso do companheiro, etc, Mas, hoje, vi uma coisa que está para lá de qualquer catalogação. Foi um broche executado com tal primor, com tal sapiência, com uma tal saciedade que parecia um buraco negro a devorar o universo remanescente numa espiral eterna e demolidora. A autora chama-se Guta Moura Guedes e o felizardo Eduardo Prado Coelho. Foi na SIC Mulher, em horário familiar e sem direito a bolinha no canto superior direito.
Sunday, April 10, 2005
Perdoai-lhes, Pai
Durante trinta anos, ela ajoelhou-se aos pés dele. E teve de rezar. E ele ajoelhou-se aos pés dela. E também teve de rezar. Ele e ela foram um só corpo e um só espírito. Carne da mesma carne. Sangue do mesmo sangue. Rezaram o seu amor na intimidade de um quarto. Mas chegou o dia em que tiveram que se ajoelhar perante o Mundo. E rezar. E pedir perdão pelos anos em que rezaram um para outro. Um no outro. É que o Mundo não aceita que eles apenas rezem no sossego da sua privacidade. A partir de agora eles têm de rezar com uma câmara de televisão atrás. E sempre que ela se voltar a ajoelhar aos pés dele, o público vai querer lá estar. Carlos e Camilla, príncipes de Gales, já não voltam a rezar sozinhos. Perdoai-lhes, Pai.
Tuesday, April 05, 2005
Dá para dizer algumas verdades sobre o Papa?
A sida é maior causa de mortalidade no mundo. As estatísticas da Organização Mundial de Saúde não mentem. O parecer avalizado dos técnicos que tentam no terreno diminuir esses números também não. Sempre que alguém cuja opinião mobiliza e influencia milhares de milhões pessoas critica o uso do preservativo está a contribuir para o aumento da lista negra de condenados à morte. O Papa sabia que milhões de católicos africanos estão sujeitos à morta certa se não usarem a famigerada camisinha e, mesmo assim, pactuou. O mesmo Papa também sempre soube que o Vaticano estava longe de ser um templo de amor e caridade cristãos, como provam as suas ligações com a Mafia italiana. Os frescos e o ouro que adornam as paredes da Santa Sé foram ali parar com dinheiro cuja proveniência é pouco consentânea com os caminhos da Verdade que proclamava Cristo. E foi este mesmo Papa que nunca se coibiu de condenar as reivindicações das mulheres católicas ou os apelos dos teólogos da libertação da América latina. A Verdade dos Evangelhos não permite lembrar apenas o rosto mais humano de Karol Wojtyla - expresso na sua denúncia do neoliberalismo, da Guerra do Iraque ou no seu desejo ecuménico - mas também o seu lado mais obsoleto, primevo e menos cristão. Essa é a única maneira de homenagear um ser humano.
Tuesday, March 15, 2005
50 milhões de contos pela memória do Holocausto
Pus-me a pensar no que poderia ser feito em prol da Humanidade com 50 milhões de contos. Lembrei-me, por exemplo, que seria possível livrar da fome e da doença uns largos milhares de seres humanos. E amenizar o sofrimento de outros tantos milhares de doentes terminais e paliativos. E com os trocos que sobrassem ainda dava para financiar umas boas centenas de microempresas que poderiam livrar do desemprego mais uns quantos indivíduos. Sei lá, por acaso dei por mim a imaginar que com aquele dinheiro seria possível diminuir para metade os índices de marginalidade e miséria no Médio Oriente. Se calhar, com a barriga cheia, uma habitação com tecto e paredes e uma escola decente para os filhos, uns bons milhares de palestinianos deixavam de engrossar os exércitos de Alá. E, talvez, 50 milhões de contos também dessem jeito para apoiar a saída dos colonos das zonas ocupadas, criando-lhes condições económicas para refazerem a sua vida noutros pontos de Israel. Pois é, só que 50 milhões de contos também servem para muitas outras coisas. Como construir um Museu do Holocausto, que vai servir apenas para o Governo de Telavive continuar usar o alibi de sempre para ir desmembrando mais umas crianças e esventrando lares e a dignidade de tantas e tantas famílias, danos colaterais que tecnologia bélica de ponta desenvolvida no Massachussets não consegue evitar. Obcecados no seu processo masoquista de auto-vitimização, os israelitas vão exibir este museu como se fosse a sua casa mais valiosa do jogo de Monopólio. Os palestinianos é que terão de se contentar em ir parar sempre à cadeia, sem sequer passarem na casa-partida.